Agregação de Valor nas Exportações dos Agronegócios Paulista e Brasileiro no Período 1997-2007

            As transformações econômicas inseridas nos processos de industrialização da agricultura brasileira acabaram por criar diferenciações relevantes entre os diversos espaços territoriais. Noutras palavras, construíram-se, no tempo histórico, territorialidades específicas que devem ser compreendidas para o entendimento da dinâmica da agricultura nacional. Desde logo, a industrialização da agricultura nos termos aqui pensados, implica uma contínua diferenciação entre agricultura e agropecuária, na qual o primeiro conceito corresponde ao todo setorial e o segundo identifica as atividades exercidas dentro das propriedades rurais.

            Nesse sentido, de uma realidade em que agricultura se limitava à agropecuária, com relações de troca com os demais setores da economia, e com os processos de industrialização foram se formando as agroindústrias de bens de capital e insumos, as agroindústrias processadoras, as agroindústrias de alimentos e os agroserviços transacionais e financeiros. Assim, a agricultura ao se industrializar diferencia-se de sua agropecuária1.

            No caso brasileiro isso se deu com diferentes dinâmicas regionais a partir de São Paulo. Tanto assim que, segundo Cano (1990), 'ao contrário das demais regiões, São Paulo contou com os elementos fundamentais para sua expansão diversificada e concentradora: avançadas relações capitalistas de produção, amplo mercado interno e, desde muito cedo, uma avançada agricultura mercantil, mesmo se excluído o café' (grifo dos autores). E para entender esse processo, esse autor analisa a 'formação e expansão do complexo cafeeiro paulista' já no final do século XIX2.

            Durante o século XX, num movimento que continua neste século, não apenas esse processo de industrialização foi aprofundado, como também a agropecuária paulista empreendeu significativa modernização produtiva, na mesma medida em que os demais segmentos da agricultura estadual, representados pelas agroindústrias e agroserviços, amplificaram os respectivos resultados econômicos. Dada a limitação espacial em função de que a fronteira de expansão agropecuária paulista esgota-se no final dos anos 1960 e início dos 1970, essa expansão transborda do território estadual passando a ocupar cada vez mais outras Unidades da Federação. Essa desconcentração produtiva da agropecuária não apresenta uma relação simétrica com as transformações da agricultura, uma vez que ocorre uma elevada diferenciação entre São Paulo e as demais Unidades da Federação, naquilo que poderia ser chamado de processo de desconcentração produtiva da moderna agropecuária concomitante com a concentração da agricultura industrial em São Paulo. A balança comercial dos agronegócios mostra bem esse panorama.

            No período 1997-2007, as exportações de produtos básicos dos agronegócios paulistas saltam de patamar, saindo de pouco mais de US$1,0 bilhão no período 1997-2002, para níveis superiores a US$2,6 bilhões no período 2004-2007 (Figura 1 e Tabela 1).

Figura 1- Agregação de Valor nas Exportações dos Agronegócios, Produtos Básicos, São Paulo, 1997-2007. 

Fonte: Elaborada pelo IEA/APTA a partir de dados básicos da SECEX/MDIC.

            Quando são considerados os produtos processados, os valores das vendas externas dos agronegócios paulistas são maiores, tendo evoluído de patamares em torno dos US$5,0 bilhões no período 1997-2002 para níveis muito mais elevados, acima de US$12,0 bilhões no biênio 2006-2007 (Figura 2 e Tabela 1).

            Em função desses indicadores, os agronegócios paulistas apresentam baixa participação dos produtos básicos na pauta de exportações. Excetuando-se o ano 2004, quando o câmbio impulsionou as exportações paulistas de grãos, em todos os demais anos do período 1997-2007, as proporções de produtos básicos estão em torno de um quinto (20,0%) (Figura 3 e Tabela 2).

Tabela 1- Agregação de Valor nas Exportações dos Agronegócios, São Paulo, Outras Unidades da Federação e Brasil, 1997-2007
(US$ bilhão)


 

Ano
Brasil
São Paulo
Outras unidades da federação
Básicos
Proces.
Total
Básicos
Proces.
Total
Básicos
Proces.
Total
1997
11,20
13,77
24,96
1,30
5,06
6,36
9,90
8,70
18,60
1998
9,27
13,78
23,05
0,94
5,26
6,20
8,33
8,52
16,85
1999
8,63
13,04
21,66
1,12
5,09
6,21
7,51
7,95
15,46
2000
8,82
12,96
21,78
1,02
4,44
5,46
7,80
8,52
16,32
2001
11,18
13,83
25,01
1,13
5,06
6,20
10,05
8,76
18,81
2002
11,69
14,37
26,06
1,32
5,22
6,54
10,38
9,15
19,52
2003
14,92
17,51
32,43
1,65
6,02
7,67
13,27
11,49
24,76
2004
20,20
21,31
41,51
2,77
7,27
10,04
17,43
14,04
31,47
2005
21,92
24,38
46,30
2,71
9,04
11,75
19,21
15,34
34,55
2006
22,84
29,20
52,04
2,57
12,18
14,75
20,27
17,02
37,29
2007
29,82
32,01
61,83
3,07
12,42
15,49
26,75
19,59
46,34

Fonte: Elaborada pelo IEA/APTA a partir de dados básicos da SECEX/MDIC.


Figura 2- Agregação de Valor nas Exportações dos Agronegócios, Produtos Processados, São Paulo, 1997-2007. 

Fonte: Elaborada pelo IEA/APTA a partir de dados básicos da SECEX/MDIC.

Figura 3- Percentual de Agregação de Valor nas Exportações dos Agronegócios, Produtos Básicos, São Paulo, 1997-2007.

 
Fonte: Elaborada pelo IEA/APTA a partir de dados básicos da SECEX/MDIC.

Tabela 2 - Percentual de Agregação de Valor nas Exportações dos Agronegócios, São Paulo, Outras Unidades da Federação e Brasil, 1997-2007
(em %)


 

Ano
Brasil
São Paulo
Outras unidades da federação
Básicos
Proces.
Total
Básicos
Proces.
Total 
Básicos
Proces.
Total
1997
44,86
55,14
100,00
20,41
79,59
100,00
53,21
46,79
100,00
1998
40,21
59,79
100,00
15,21
84,79
100,00
49,42
50,58
100,00
1999
39,83
60,17
100,00
18,01
81,99
100,00
48,59
51,41
100,00
2000
40,51
59,49
100,00
18,73
81,27
100,00
47,79
52,21
100,00
2001
44,70
55,30
100,00
18,29
81,71
100,00
53,41
46,59
100,00
2002
44,86
55,14
100,00
20,11
79,89
100,00
53,15
46,85
100,00
2003
46,01
53,99
100,00
21,45
78,55
100,00
53,61
46,39
100,00
2004
48,66
51,34
100,00
27,55
72,45
100,00
55,39
44,61
100,00
2005
47,35
52,65
100,00
23,06
76,94
100,00
55,61
44,39
100,00
2006
43,89
56,11
100,00
17,42
82,58
100,00
54,36
45,64
100,00
2007
48,23
51,77
100,00
19,82
80,18
100,00
57,73
42,27
100,00

Fonte: Elaborada pelo IEA/APTA a partir de dados básicos da SECEX/MDIC.

            Fato decorrente da condição agroindustrial exportadora dos agronegócios paulistas, uma vez que quatro quintos (80,0%) das exportações setoriais do período 1997-2007 foram de produtos com agregação de valor por transformação agroindustrial (Figura 4 e Tabela 2).

Figura 4 - Percentual de Agregação de Valor nas Exportações dos Agronegócios, Produtos Processados, São Paulo, 1997-2007. 

Fonte: Elaborada pelo IEA/APTA a partir de dados básicos da SECEX/MDIC.

            Quando se avalia o comportamento das exportações dos agronegócios brasileiros, verifica-se que as vendas de produtos básicos, que eram de US$11,20 bilhões em 1997, recuam para US$8,63 bilhões em 1999, face à sobrevalorização cambial do período. Desse ano em diante, apresentam vertiginoso processo de expansão, atingindo US$29,82 bilhões em 2007 (Figura 5 e Tabela 1). A despeito da nova sobrevalorização cambial pós-2004, ocorre incremento das vendas de produtos básicos face a preços internacionais atrativos.

Figura 5 - Agregação de Valor nas Exportações dos Agronegócios, Produtos Básicos,Brasil, 1997-2007. 

Fonte: Elaborada pelo IEA/APTA a partir de dados básicos da SECEX/MDIC.

            Em termos de produtos processados, os incrementos foram expressivos, de US$13,77 bilhões em 1997, atingem US$32,01 bilhões em 2007 (Figura 6 e Tabela 1), embora esse desempenho demonstre menor dinamismo face aos produtos básicos, uma vez que, neste caso, os preços não tiveram aumentos relevantes.

Figura 6 - Agregação de Valor nas Exportações dos Agronegócios, Produtos Processados, Brasil, 1997-2007. 

Fonte: Elaborada pelo IEA/APTA a partir de dados básicos da SECEX/MDIC.

            Em termos percentuais, as vendas externas de produtos básicos dos agronegócios brasileiros não apenas são muito superiores aos verificados para o caso paulista, como também são crescentes de 44,86% em 1997 para 48,23% em 2007 (Figura 7 e Tabela 2).

            Essa expressiva participação dos produtos básicos faz com que as vendas de produtos processados, cujos percentuais cresceram de 55,14% em 1997 para 60,17% em 1999, passem a constituir tendência de queda persistente, atingindo 51,77% em 2007 (Figura 8 e Tabela 2).

Figura 7 - Percentual de Agregação de Valor nas Exportações dos Agronegócios, Produtos Básicos, Brasil, 1997-2007. 

Fonte: Elaborada pelo IEA/APTA a partir de dados básicos da SECEX/MDIC.

Figura 8 - Percentual de Agregação de Valor nas Exportações dos Agronegócios, Produtos Processados, Brasil, 1997-2007. 

Fonte: Elaborada pelo IEA/APTA a partir de dados básicos da SECEX/MDIC.

            Esse processo deriva de as exportações das demais Unidades da Federação concentrarem-se em produtos básicos os quais, após recuarem de US$9,90 bilhões em 1997 para 7,51 bilhões em 1999, ganham notável dinamismo, US$26,75 bilhões em 2007 (Figura 9 e Tabela 1).

            Já, para os produtos processados, após manutenção no patamar de US$8,70 bilhões entre 1997 e 2001, também ocorre expansão expressiva alcançando US$19,59 bilhões em 2007 (Figura 10 e Tabela 1).

            Em termos proporcionais, há uma nítida prevalência dos produtos básicos nas exportações dos agronegócios das demais Unidades da Federação, indicador que, após recuar de 53,21% em 1997 para 47,79% em 2000, cresce de forma significativa para atingir 57,73% em 2007 (Figura 11 e Tabela 2).

Figura 9 - Agregação de Valor nas Exportações dos Agronegócios, Produtos Básicos, Outras Unidades da Federação, 1997-2007. 

Fonte: Elaborada pelo IEA/APTA a partir de dados básicos da SECEX/MDIC.

Figura 10 - Agregação de Valor nas Exportações dos Agronegócios, Produtos Processados, Outras Unidades da Federação, 1997-2007. 

Fonte: Elaborada pelo IEA/APTA a partir de dados básicos da SECEX/MDIC.

Figura 11- Percentual de Agregação de Valor nas Exportações dos Agronegócios, Produtos Básicos, Outras Unidades da Federação, 1997-2007. 

Fonte: Elaborada pelo IEA/APTA a partir de dados básicos da SECEX/MDIC.

            Com os produtos processados, após crescimento de 46,79% em 1997 para 52,21% em 2000, há expressivo recuo para 42,27% em 2007 (Figura 12 e Tabela 2).

Figura 12- Percentual de Agregação de Valor nas Exportações dos Agronegócios, Produtos Processados, Outras Unidades da Federação, 1997-2007. 

Fonte: Elaborada pelo IEA/APTA a partir de dados básicos da SECEX/MDIC.

            Em linhas gerais notam-se as relevantes diferenças estruturais entre os agronegócios paulista e das demais Unidades da Federação, à medida que, em São Paulo, a parcela expressiva das vendas externas correspondem a produtos processados, enquanto nas demais unidades da federação prevalecem os produtos básicos. Noutras palavras, a agricultura representa uma economia agroindustrial exportadora nas terras paulistas face à condição ainda primário-exportadora das demais regiões brasileiras. Assim, o processo de desconcentração produtiva atingiu a moderna agropecuária, porém, ainda não alcançou expressão na estrutura agroindustrial de processamento.
_______________________________________________________________________________
1Essa conceituação do processo de transformação, para as realidades paulista e brasileira, está disponível em GONÇALVES, J. S. Dinâmica da agropecuária paulista no contexto das transformações da sua agricultura. Informações Econômicas, São Paulo, v.35, n. 12, p. 65-98, dez. 2005 e GONÇALVES, J. S. Agricultura sob a égide do capital financeiro: passo rumo ao aprofundamento do desenvolvimento dos agronegócios. Informações Econômicas , São Paulo, v. 34, n. 4, p. 7-36, abr. 2005.
2Ver uma contribuição fundamental para o entendimento da dinâmica da agricultura brasileira, representado pelo livro CANO, W. Raízes da concentração industrial em São Paulo. 3.ed. São Paulo: Hucitec, 1990.

Palavras-chave: agronegócios, balança comercial, exportações, agregação de valor.

Data de Publicação: 18/03/2008

Autor(es): Sueli Alves Moreira Souza (sueli@iea.sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor
José Sidnei Gonçalves (sydy@iea.sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor