Trajetória Econômica Recente da Aquicultura Paulista: inclusão da tilápia no valor da produção agropecuária


 

1 - INTRODUÇÃO

O relatório sobre as condições mundiais pesqueiras emitido pela Food and Agriculture Organization (FAO) em 2024 aponta que, em termos globais, a pesca e aquicultura (incluindo desde captura marítima, fluvial, lacustre, produção de algas e crustáceos e produção aquicultura continental e marítima) somaram 223,2 milhões de toneladas, avaliadas em US$472 bilhões1. Ainda que o próprio relatório indique a fragilidade das estatísticas, os números agregados pela entidade são bastante expressivos, denotando que o segmento possui grande importância tanto socioeconômica como de segurança alimentar.

A China lidera a produção global de pescados (por aquicultura e captura marítima), com 35% do total mundial. Em termos continentais, o restante da Ásia contribui com 34% da oferta, seguida pelas Américas (14%), Europa (10%), África (7%) e Oceania (1%).

Em relação a pesca, os sete maiores produtores pesqueiros são responsáveis por mais de 50% da produção global, tratam-se da China (15%), Indonésia (8%), Peru (8%), Índia (4%), Rússia (6%), EUA (6%) e Vietnam (4%). O Brasil ocupa a 13ª posição na produção de peixes em cativeiro e a 8ª posição na produção de peixes de água doce2.

A contribuição do segmento para a segurança alimentar mundial tem evoluído positivamente nas últimas décadas. Segundo o relatório citado, o consumo per capita de alimentos aquáticos, em 2022, alcançou 20,7 kg/hab./ano. Entre 2020 e 2022, a aquicultura contabilizou crescimento de 6,6%, representando 57% do total produzido e assim, liderando a oferta total pelo segmento3.

Dentre o rol da produção de proteínas animais que constituem a base da pecuária paulista, a aquicultura4 ainda não alcançou seu efetivo potencial, especialmente, quando comparada com a realidade de outros países e, até mesmo, frente a outros estados da federação que já exibem segmento de robustez dentro de sua matriz produtiva no setor.

Em 2023, dados do portal do Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) indicaram que a produção total de pescados e crustáceos (camarão basicamente) alcançou 791,50 mil toneladas, representando incremento de 6,2% frente ao ano anterior. A tilápia foi o peixe mais cultivado ao perfazer 55,87% desse total, ou seja, 442,17 mil toneladas. Os estados líderes na produção de tilápias foram: Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e Pernambuco. Somados, esses cinco estados compuseram 75,84% do total nacional. Destaca-se que o Paraná, isoladamente, produz quase três vezes mais tilápias do que o segundo colocado, São Paulo. Apenas Amazonas e Roraima ainda não possuem representação na aquicultura comercial5.

Este trabalho objetiva compilar e cotejar informações atuais sobre número de estabelecimentos dedicados a aquicultura (com foco no cultivo de tilápias), sua dispersão pelo território, número de frigoríficos certificados e ativos, produção e preços no estado de São Paulo. As fontes das informações abrangem desde instituições de pesquisa estaduais e federais, centrais de abastecimento e, ainda, órgãos de representação do segmento.

Em 2018, a Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati) realizou mapeamento da atividade aquícola no estado de São Paulo, tendo cadastrado 1.462 unidades desenvolvendo a atividade em 371 municípios paulistas. Os reservatórios de geração hidroelétrica concentraram essas criações no sistema de produção de tanques-rede, sendo que os situados no oeste paulista (regiões de Jales, Andradina e Fernandópolis), reservatório de Ilha Solteira, têm a maior presença da atividade no estado, com produção estimada de 23,4 mil t/ano. A produção de peixes em viveiros escavados está distribuída em todo o estado, com predominância nas regiões de Limeira (1,72 mil t/ano), Bragança Paulista (1,55 mil t/ano) e Araçatuba (1,027 mil t/ano)6.

Dados sobre o volume mensal de abate de tilápias em São Paulo, compreendendo o período entre janeiro de 2024 e junho de 2025, provenientes da Coordenadoria de Defesa Agropecuária (CDA) sobre o número de estabelecimentos com Serviço de Inspeção Estadual (SISP) ou Serviço de Inspeção Federal (SIF), totalizou 79,73 mil toneladas nos 18 meses considerados (Figura 1), representando média mensal de 4,48 mil toneladas7. Há variação significativa ao longo dos meses com maior volume de abates no último trimestre do ano.

                  

 

Ainda segundo o mapeamento conduzido pela Cati, a produção paulista alcançou 62,8 mil toneladas de pescados em 20188, sendo que exclusivamente a tilápia somou 55,7 mil toneladas, o que corresponde a 88,69% da produção9.

O estudo conclui que a atividade tem se intensificado no panorama da agropecuária paulista (considerando tanto a produção em escala como os pesque-pague), originando expressiva movimentação financeira nas regiões em que está implantada. A tecnologia de criação em tanques-rede contribuiu para uma elevação substancial na produção e produtividade.

 

2 - METODOLOGIA

Este estudo partiu de dados rotineiramente levantados pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo (SAA/SP), por meio do Instituto de Economia Agrícola (IEA), da Cati e da CDA.

Os preços médios foram obtidos do levantamento dos Preços Médios Mensais Recebidos pelos Produtores10, realizado mensalmente pelo IEA com colaboração da Cati; eles representam valores médios correntes nominais de janeiro a dezembro para os anos de 2022 a 2024 e de janeiro a agosto de 2025, para a estimativa preliminar de 2025.

Os dados de produção foram calculados a partir dos registros das Guias de Trânsito Animal (GTAs)11 – volume (peso) de animais enviados ao abate escriturados pela CDA. Somente criações em território são contabilizados, ou seja, animais importados de outros estados para o abate no estado não são incluídos nos cálculos. Todos os dados obtidos via GTAs são agregados, impedindo sua identificação (dos animais, das propriedades ou proprietários), de acordo com as normas da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD).

O valor da produção, ou receita bruta, é resultado da multiplicação do seu preço médio pela produção, em valores anuais.

Salienta-se que parte do transporte com objetivo de abate de peixes é realizado sem emissão da GTA e, assim, estes valores não são captados pelo levantamento, o que leva a uma subestimativa da produção e, consequentemente, do valor da produção, consistindo em uma limitação para a estimativa calculada.

 

3 - CÁLCULO DO VALOR DA PRODUÇÃO

As estimativas de Valor da Produção Agropecuária do Estado de São Paulo12, sistematizadas e divulgadas pelo IEA em colaboração com a Cati e CDA, passam por alterações na composição do quadro de valor, à medida que ocorrem novas incorporações no rol de produtos listados historicamente. Para o cálculo prévio de 2025, a equipe de pesquisadores do IEA deliberou pela inclusão da tilápia, por se tratar de uma criação que exibe tanto grande crescimento da produção como potencial de expansão (tanques- -rede nos reservatórios).

Os criatórios em tanques escavados são mais frequentes no planalto e na Mantiqueira, tanto aqueles destinados à produção comercial como o empreendedorismo do pesque-pague (atividade de lazer bastante disseminada). Os tanques-rede prevalecem nas regiões em que se concentram os grandes reservatórios. A modalidade de barramento de riachos e rios também pode ser encontrada, porém, em quantidade mais restrita. Em 2024, dados coletados pela pesquisa subjetiva do IEA, em parceria com a Cati, indicam que os tanques-rede na criação de tilápias no estado de São Paulo somam 12.156 unidades, enquanto os escavados contabilizaram 9.802 unidades. Em termos de quantidades produzidas, os tanques-rede respondem por mais de 3/4 do total.

Vinte e um frigoríficos respondem por 86,15% do abate da tilápia paulista. Outros abatedouros situados nos estados do Mato Grosso do Sul, do Paraná, de Minas Gerais e do Maranhão (em ordem de participação) completam a lista do destino da tilápia produzida13.

A prévia da estimativa de Valor da Produção da Aquicultura Paulista, em 2025, considerando exclusivamente o segmento da criação de tilápias, alcançou R$494,11 milhões, representando declínio de 3,04% frente ao apurado no ano anterior. Tal resultado foi obtido apesar do aumento de 2,90% na produção, que contabilizou 54,17 mil toneladas. Portanto, a perda em valor decorre da queda de 5,77% nos preços médios recebidos pelos aquicultores (Tabela 1).

 

 

Devido a questões climáticas propícias (temperatura e luminosidade), espera-se que a produção de tilápias se incremente no segundo semestre. Possivelmente, esse aumento na produção possa reverter a queda no valor da produção contabilizado nesse cálculo preliminar. Ademais, os dados indicam aumento no número de criatórios tanto em viveiros escavados como em tanques-rede, indicando que se trata de segmento dinâmico na matriz agropecuária paulista.

 

1FAO. Food and Agriculture Organization. The state of world fisheries and aquaculture 2024: blue transformation in action. Rome: FAO, 2024. DOI: https://doi.org/10.4060/cd0683en. Disponível em: https://openknowledge.fao.org/server/api/core/bitstreams/a10e81b3-3fbd-4393-b7b6-6a926915a19a/
content. Acesso em: 22 set. 2025.

 

2BONFA NETO, D. O estado mundial da pesca e aquicultura em 2020. Mares: Revista de Geografia e Etnociências, [S. l.], v. 2, n. 2, p. 111-14, 2020. Disponível em: https://revistamares.com.br/index.php/files/article/view/88. Acesso em: 27 nov. 2025.

 

3Op. cit. nota 1.

 

4As principais espécies produzidas no Estado de São Paulo são: carpa-cabeça grande, carpa- capim, carpa-prateada, carpa, curimbatá, dourado, lambari, matrinxã, pacu, pintado, tambaqui, tantinga, patinga, tilápia, traíra e truta.

 

5MPA. Ministério da Pesca e Aquicultura. Painel da produção aquícola. Brasília, DF: Ministério da Pesca e Aquicultura, 2025. Disponível em: https://app.powerbi.com/view?r=eyJrIjoiMGExOWYwM2ItNmZkYS00ZjcxLTkxOWItN2QxMDYxYjViMWRhIiwidCI6IjljMTlmN2IxLWU3MDMtNDE1My1hZTY3LTllNmU1NTZhY
jU5ZCJ9. Acesso em: 22 set. 2025.

 

6CARMO, F. J. et al. Levantamento das unidades de piscicultura no Estado de São Paulo. Campinas: CDRS: CATI, 2021. 24 p. (Documento Técnico, 123). Disponível em: https://www.cati.sp.gov.br/portal/themes/unify/arquivos/produtos-e-servicos/acervo-tecnico/Documento%20T%C3%A9cnico%20123%20-%20levantamento_das_unidades_de_piscicultura_no_estado_de_sao_paulo_marco_2021.pdf. Acesso em: 22 set. 2025.

 

7CDA/SAA. Coordenadoria de Defesa Agropecuária da Secretária de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. Guias de Trânsito Animal (GTAs). Relatório interno. [S. l.: s. n.], 2025.

 

8Op. cit. nota 4.

 

9Op. cit. nota 6.

 

10INSTITUTO DE ECONOMIA AGRÍCOLA. Banco de dados: estatísticas de preços médios recebidos pelos agricultores paulistas - PMR. São Paulo: IEA, 2025. Disponível em: http://ciagri.iea.sp.gov.br/nia1/precos_medios.aspx?cod_sis=2. Acesso em: 22 set. 2025.

 

11Op. cit. nota 7.

 

12VEGRO, C. L. R. et. al. Valor da Produção Agropecuária Paulista: resultado preliminar de 2025. Análises e Indicadores do Agronegócio, São Paulo, v. 21, n. 1, jan. 2026, p. 1-8. Disponível em: https://iea.agricultura.sp.gov.br/out/TerTexto.php?codTexto=16315. Acesso em: 12 jan. 2026.

 

13Op. cit. nota 7.


Palavras-chave: tilápia, piscicultura, produto de origem animal, valor da produção.

 

 

COMO CITAR ESTE ARTIGO

PINATTI, E.; VEGRO, C. L. R.; COELHO, P. J. Trajetória Econômica Recente da Aquicultura Paulista: inclusão da tilápia no valor da produção agropecuária. Análises e Indicadores do Agronegócio, São Paulo, v. 21, n. 1, jan. 2026, p. 1-7. Disponível em: colocar o link do artigo. Acesso em: dd mmm. aaaa.

Data de Publicação: 20/01/2026

Autor(es): Eder Pinatti (eder.pinatti@sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor
Celso Luís Rodrigues Vegro (celvegro@sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor
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