Análise de Conjuntura e Perspectivas do Agro 2020 – leite


 

LEITE E DERIVADOS

Em 2019, o mercado brasileiro de leite se mostrou atípico. Na produção, a oferta foi restrita, devido ao clima seco, na maior parte do tempo. A falta de chuvas nas regiões Sudeste e Centro-Oeste em plena safra, no início do ano, prejudicou os pastos e a produção. No Sul, o excesso de chuvas comprometeu a produção. Na entressafra (maio a novembro), o clima continuou seco e na entrada da safra, ainda na primavera, as chuvas atrasaram, continuando a deixar o mercado desfavorável ao produtor.

Tais fatores levaram à diminuição da produção, geraram alta nos custos e elevaram os preços para o produtor, que ao longo do ano estiveram mais altos do que em 2018.

Segundo resultados iniciais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística1, a quantidade de leite cru adquirido e industrializado, resfriado ou não, em 20192, aumentou 2,3% no Brasil3, o que induz que em 2019 houve aumento da produção. Entretanto, esse dado não leva em consideração o leite usado na propriedade nem o vendido na informalidade. Essa quantidade parece ser bastante expressiva. Segundo levantamento do IBGE, a diferença entre produção e captação formal no Brasil em 2017 ficou em cerca de 9 bilhões de litros, 27,3% do total4.

 

Os dados do IBGE mostram que a produção nos anos de 2017 e 2018 foi estável, não havendo crescimento significativo e que a participação do Estado de São Paulo também se manteve estável, acompanhando o mesmo que ocorreu com a participação da Região Sudeste (Tabela 1).

No Estado de São Paulo, o preço médio anual recebido pelos produtores em 2018 e 2019, segundo dados do Instituto de Economia Agrícola (IEA), foi de R$1,33 e R$1,425, respectivamente, ou seja, 6,6% de diferença, favorável ao pecuarista de leite.

No entanto, essa elevação dos preços e a falta de produto no mercado levaram a indústria a ter dificuldades na captação da matéria-prima e de escoamento de seus estoques. A alta dos preços não conseguiu ser repassada ao consumidor, o que levou a indústria a ceder às redes varejistas para escoar o produto. Este último fator fez com que o preço médio anual do varejo do leite UHT tivesse queda de 3,4%, segundo os dados do IEA, caindo de R$3,38 para R$3,256, pois, devido ao baixo consumo no mercado interno, consequência da situação econômica do país, o consumidor diminuiu sua possibilidade de acesso aos produtos lácteos.

O Estado de São Paulo não produz leite em quantidade suficiente para atender à sua demanda interna e habitualmente compra leite cru dos estados vizinhos (Minas Gerais e Paraná), para processar dentro de seu território. No entanto, apenas esse volume não atende o número de consumidores do estado, sendo necessário complementar o volume necessário com a compra de uma quantidade significativa de leite, principalmente UHT, para abastecer seu mercado.

A partir de 2004, a produção do país, apesar de crescente, não conseguiu mais atender o consumo interno que teve uma expansão do crescimento por conta da melhora do poder de compra da população. Frente a isso, o Brasil precisou aumentar suas importações de lácteos para atender a demanda crescente do mercado interno7.

Em 2019, no entanto, as importações brasileiras de lácteos tiveram queda de 7,3% em volume e 7,0% em valor. No Estado de São Paulo diminuíram 11,1% no volume e 17,7% no valor, superior à queda ocorrida no país. Quanto às exportações, que em alguns momentos do ano serviram para desovar o estoque dos laticínios, o Brasil teve um volume 6,3% superior a 2018, mas, em relação ao preço, teve baixa de 2,2%. O volume vendido por São Paulo caiu 2,1% e o valor 2,8%8.

A dificuldade de suprir o mercado interno, em 2019, afetou as vendas externas do país, mesmo o Brasil não sendo importante exportador de leite. Alguns analistas apontam que produtores de leite deixaram a atividade no estado paulista, o que pode ter afetado as importações estaduais, ou seja, fez com que o estado precisasse comprar mais produtos no mercado externo.

Para 2020, com as chuvas que chegaram a dezembro de 2019 e continuaram no início do novo ano, os pastos melhoraram, o que abre espaço para perspectivas melhores na produção na região Sudeste, com expectativa de que a produção deve voltar ao normal, ou mesmo crescer. Na região Sul, a estiagem tem comprometido a produção de leite e o milho para silagem. A fumaça das queimadas na Austrália também contribuiu para essa seca e interferiu na possibilidade de melhora da produção. A condição do consumidor, com restrições orçamentárias para o consumo de derivados lácteos, terá papel importante, também, na determinação dos rumos do mercado.

Quanto às exportações, a possibilidade de crescimento está relacionada não só ao aumento da produção, mas também à qualidade do leite nacional e à dinâmica do mercado mundial que tem como fato concreto a seca na Oceania, onde se situa a Nova Zelândia, forte exportadora de leite. Além disto, países como Argentina e Uruguai, que costumam vender para o Brasil, tiveram queda de produção, contribuindo para incentivar o investimento na produção nacional.

 

 

 

 

1TRIMESTRAIS da pecuária – primeiros resultados: abate de bovinos cai e de suínos e frangos sobe no 4º trimestre de 2019. Agência IBGE Notícias, Rio de Janeiro, 13 dez. 2020. Disponível em: https://
agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/26887-trimestr
ais-da-pecuaria-primeiros-resultados-abate-de-bovinos-cai-e-de-suinos-e-frangos-sobe-no-4-trimestre-de-20
19.html.
Acesso em: 14 jan. 2020.

 

2Os dados de produção de leite do IBGE e IEA são consolidados alguns meses depois de iniciado o ano, portanto algumas análises são prospectivas

 

3O dado final de captação é divulgado pelo IBGE apenas em março de 2020.

 

4INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Produção da Pecuária Municipal 2017, Rio de Janeiro, v. 45, p. 1-8, 2017. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/84/
ppm_2017_v45_br_informativo.pdf.
Acesso em 29 jan. 2020.

 

5INSTITUTO DE ECONOMIA AGRÍCOLA. Preços Médios Recebidos pelos Agricultores. São Paulo: IEA, 2020. Disponível em: http://ciagri.iea.sp.gov.br/nia1/precos_medios.aspx?cod_sis=2. Acesso em: 6 jan. 2020.

 

6INSTITUTO DE ECONOMIA AGRÍCOLA. Preços Médios Mensais no Varejo. São Paulo: IEA, 2020. Disponível em: http://ciagri.iea.sp.gov.br/nia1/precos_medios.aspx?cod_sis=4. Acesso em: 6 jan. 2020.

 

7BELLINI-LEITE, J. L.; RESENDE, J. C.; STOK, L. A. Desempenho do mercado brasileiro de lácteos. In: Anuário Leite 2019. Brasília: Embrapa Gado de Leite, 2020, p. 26 27. Disponível em: embrapa.br/gado-de-leite. Acesso em: 14 fev. 2020.

 

8MINISTÉRIO DA ECONOMIA. Secretaria de Comércio Exterior. Sistema ComexStat. Brasília: ME: SECEX, 2020. Disponível em: http://comexstat.mdic.gov.br. Acesso em: 7 e 13 jan. 2020.

Palavras-chave: leite, São Paulo e Brasil, produção, preços, exportação e importação.


Data de Publicação: 13/03/2020

Autor(es): Rosana de Oliveira Pithan e Silva (rpithan@iea.sp.gov.br) Consulte outros textos deste autor